Por Enio Fonseca e Decio Michellis
“O mundo moderno não é movido pela virtude. É movido por moléculas — petróleo, gás natural, carvão — e, cada vez mais, por nações dispostas a garanti-las.” (Todd Royal)
A energia renovável representou 85,6% de toda a nova capacidade energética instalada no mundo no ano passado, de acordo com um relatório () divulgado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), um órgão da ONU.
A ONU/IRENA acreditam que os países terão um incentivo com o conflito no Oriente Médio expondo a dependência do fornecimento global de petróleo e gás em relação a certos pontos estratégicos, incluindo o Estreito de Ormuz. Isto afetou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e gás aos mercados globais, expondo a fragilidade do sistema energético global. Nesta visão, “Um sistema energético mais descentralizado, com uma participação crescente de energias renováveis e mais agentes de mercado, é estruturalmente mais resiliente”, afirmou Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, em comunicado. “Os países que investiram na transição energética estão a atravessar esta crise com menos danos econômicos, ao mesmo tempo que reforçam a segurança energética, a resiliência e a competitividade.” Mas alguns entraves permanecem em detrimento da eletrificação com energias renováveis: As energias eólica e solar continuam limitadas pelas condições climáticas, com capacidade reduzida quando o sol se põe ou o vento cessa. A tecnologia de baterias (armazenamento de energia – inadequada para fornecimento de energia de reserva a longo prazo) está avançando, mas a quantidade instalada representa uma pequena parcela necessária para fixar estas fontes energéticas não despacháveis. Países com uma grande participação de energias eólica e solar em sua matriz elétrica ainda podem sofrer com altos custos de eletricidade. A confiabilidade das energias eólica e solar também são limitadas por suas cadeias de suprimentos. Os componentes críticos usados na fabricação de painéis solares, nas turbinas eólicas e nas baterias apresentam pouca flexibilidade e estão substituindo a dependência de petróleo pela dependência chinesa no fornecimento de equipamentos, componentes, peças de reposição, materiais e processos de fabricação. Portanto se trata de dependências centralizadas. Se a China priorizar seu mercado interno ou usar sua posição nas negociações comerciais, o mercado de energias renováveis está(rá) em risco. A China eliminou os incentivos à exportação de painéis solares, o que implica no aumento dos custos da infraestrutura de energia solar no mundo. Estamos tentando construir nosso futuro sistema energético com base em cadeias de suprimentos que não controlamos. Não existe uma cadeia de suprimentos “pós-combustíveis fósseis”: painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos nascem de combustíveis fósseis. Mineração, refino, manufatura, transporte são consumidores intensivos hidrocarbonetos e petroquímicos. Os pontos de estrangulamento nas cadeias de suprimento com o fechamento do Estreito Ormuz são problemas geopolíticos. A história mostrou como essas ameaças são resolvidas na maioria das vezes militarmente. A Segunda Guerra Mundial foi vencida por meio do uso da força e mobilização industrial impulsionada por hidrocarbonetos e não por meio de negociações sobre cadeias de suprimentos. Países mais pobres estão com dificuldades de avançar na eletrificação e na eletromobilidade. Embora os custos de implantação de energia eólica e solar estejam em queda, os custos indiretos necessários para tornar estas energias “firmes” são altos: investimentos adicionais em baterias (BESS) e ou hidrelétricas reversíveis, compensadores síncronos para estabilizar a rede elétrica (agora é necessário investir em robustez e resiliência do sistema) e reforços na transmissão de longa distância. Estes investimentos complementares e indispensáveis podem multiplicar o custo da eletricidade gerada por energia eólica e solar por dez ou mais. Sensação de irrealidade econômica com custos crescentes da energia, mesmo considerando o paradigma da transição energética de que as energias renováveis são “baratas, limpas e seguras” de ser mais competitiva que as formas de geração convencional. Além de não ser barata, não é competitiva economicamente, os equipamentos necessários não são produzidos internamente (dependência de importação) e não é segura (não despachável e, portanto, não confiável). Observar a realidade termodinâmica e econômica está mudando alguma coisa? A guerra não significa que as energias renováveis substituirão o petróleo.
Enio Fonseca – Engenheiro Florestal, Senior Advisor em questões socioambientais, Especialização em Proteção Florestal pelo NARTC e CONAF-Chile, em Engenharia Ambiental pelo IETEC-MG, em Liderança em Gestão pela FDC, em Educação Ambiental pela UNB, MBA em Gestão de Florestas pelo IBAPE, em Gestão Empresarial pela FGV, Conselheiro do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico, FMASE, foi Superintendente do IBAMA em MG, Superintendente de Gestão Ambiental do Grupo Cemig, Chefe do Departamento de Fiscalização e Controle Florestal do IEF, Conselheiro no Conselho de Política Ambiental do Estado de MG, Ex Presidente FMASE, founder da PACK OF WOLVES Assessoria Ambiental, foi Gestor de Sustentabilidade Associação Mineradores de Ferro do Brasil e Diretor Meio Ambiente e Relações Institucionais da SAM Metais. Membro do Ibrades, Abdem, Adimin, Alagro, Sucesu, CEMA e CEP&G/ FIEMG e articulista do Canal direitoambiental.com.
Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico – FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance.
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Direito Ambiental