Enio Fonseca e Decio Michellis Jr.
Há uma contradição pouco discutida no debate contemporâneo sobre clima e sustentabilidade: justamente quando os desafios ambientais se tornam mais complexos, parte do movimento ambientalista parece depositar uma fé cada vez maior em tecnologias que ainda não existem em escala comercial, não foram suficientemente testadas, permanecem imaturas ou simplesmente não demonstraram viabilidade econômica.
É como se a crise climática tivesse produzido uma nova forma de pensamento mágico: não basta encontrar soluções melhores; é preciso acreditar que surgirá uma tecnologia salvadora, capaz de resolver simultaneamente emissões, energia, transporte, indústria, armazenamento, captura de carbono e até os impactos ambientais que acompanham a própria transição.
A lista é conhecida: hidrogênio verde em larga escala, captura direta de CO₂ do ar, combustíveis sintéticos, aviação de emissão líquida zero, armazenamento de energia de longa duração, fusão nuclear, baterias revolucionárias, remoção maciça de carbono, redes elétricas capazes de absorver quantidades ilimitadas de fontes intermitentes e uma sucessão de tecnologias que prometem transformar radicalmente a economia energética. Algumas são extremamente promissoras. Outras poderão desempenhar papéis importantes. Mas promessa tecnológica não é sinônimo de tecnologia disponível, madura e economicamente competitiva.
O problema não está em investir em inovação. Pelo contrário: uma sociedade que pretenda enfrentar desafios de longo prazo precisa experimentar, pesquisar, assumir riscos tecnológicos e manter abertas múltiplas alternativas. O problema começa quando uma possibilidade tecnológica é tratada como se fosse uma solução comprovada e principalmente, quando alternativas existentes, maduras e economicamente viáveis são rejeitadas porque não correspondem à visão ideológica da transição desejada.
Surge então uma espécie de “tecnofetichismo ambiental”: a crença de que a solução para os problemas criados pelo desenvolvimento econômico será necessariamente encontrada em alguma tecnologia futura, sofisticada, disruptiva e ainda não plenamente disponível.
Essa postura produz um paradoxo. De um lado, condena-se a humanidade por depender excessivamente de tecnologias convencionais; de outro, propõe-se substituir sistemas energéticos, industriais e de transporte que funcionam hoje por tecnologias que ainda precisam provar que conseguem funcionar em escala, com confiabilidade e a custos aceitáveis.
A pergunta que deveria preceder qualquer promessa tecnológica é simples: funciona? Em que escala? A que custo? Com quais impactos ambientais? Com quais materiais? Com qual consumo de energia? E pode ser replicada globalmente?
Essas perguntas são particularmente importantes porque a transição energética não ocorre em laboratório. Ela acontece em cidades, fábricas, sistemas de transporte, redes elétricas e cadeias produtivas que precisam funcionar 24 horas por dia, 365 dias por ano.
Uma tecnologia pode ser tecnicamente possível e, ainda assim, ser economicamente inviável. Pode ser economicamente viável em uma demonstração e inviável em escala industrial. Pode funcionar em determinado país e ser impraticável em outro. Pode reduzir uma emissão e aumentar significativamente outra. Pode apresentar excelente desempenho ambiental no ponto de utilização e depender de uma cadeia de suprimentos intensiva em energia, minerais, água ou infraestrutura.
É justamente aí que o debate ambiental frequentemente perde sua dimensão sistêmica.
Não existe uma “tecnologia limpa” em sentido absoluto. Existem sistemas tecnológicos com diferentes impactos ambientais, econômicos e sociais. Toda escolha envolve custos de oportunidade. Recursos destinados a uma tecnologia deixam de estar disponíveis para outra. Capital, minerais, mão de obra especializada, infraestrutura, água, território e energia são recursos finitos.
A obsessão por tecnologias futuras pode, portanto, produzir um efeito perverso: adiar soluções disponíveis enquanto se espera pela solução perfeita.
A sustentabilidade exige algo menos sedutor, porém muito mais difícil: pragmatismo.
Não se trata de escolher entre “tecnologia velha” e “tecnologia nova”, nem entre “ambientalismo” e “desenvolvimento”. Trata-se de construir um portfólio tecnológico capaz de reduzir impactos ambientais sem comprometer segurança energética, competitividade econômica, desenvolvimento social e confiabilidade dos sistemas essenciais.
Nesse contexto, energia nuclear, gás natural com redução de emissões, hidroeletricidade, biocombustíveis, eficiência energética, modernização de redes, armazenamento, renováveis e tecnologias de captura de carbono não deveriam ser julgados pela sua identidade ideológica, mas pelo resultado que entregam.
O verdadeiro teste da sustentabilidade não é perguntar se uma tecnologia parece suficientemente “verde”. É perguntar se ela consegue entregar, simultaneamente, escala, confiabilidade, acessibilidade, segurança e redução efetiva dos impactos ambientais.
Há uma diferença fundamental entre apostar na inovação e apostar que a inovação resolverá o problema a tempo.
A primeira é uma estratégia racional.
A segunda é uma aposta.
E talvez a maior ironia do atual debate climático seja justamente esta: em nome do princípio da precaução, condena-se a sociedade por riscos presentes e futuros, mas simultaneamente aceita-se um enorme risco tecnológico ao pressupor que tecnologias ainda imaturas estarão disponíveis, competitivas e escaláveis quando forem necessárias.
A crise climática não pode ser enfrentada com uma coleção de promessas tecnológicas. Precisamos de tecnologias que funcionem e precisamos delas antes que seja tarde.
O futuro certamente será tecnológico. A questão é saber se teremos a lucidez de construir esse futuro com todas as tecnologias que funcionam, ou se ficaremos esperando por aquelas que gostaríamos que funcionassem.
Porque, no mundo real, o planeta não espera pela maturidade tecnológica, pelo próximo salto de inovação nem pela tecnologia perfeita.
SAF: a promessa de sustentabilidade sob pressão
O Combustível Sustentável de Aviação SAF (Sustainable Aviation Fuel) tornou-se uma das principais apostas para reduzir as emissões da aviação comercial. A lógica parece irresistível: substituir progressivamente o querosene fóssil por combustíveis produzidos a partir de resíduos, biomassa, óleos, álcool, gases residuais ou outras matérias-primas e, assim, permitir que aeronaves convencionais continuem voando sem exigir uma transformação radical da frota existente.
Mas entre poder ser produzido e ser produzido em escala suficiente, a custo competitivo, com disponibilidade permanente, segurança de abastecimento e efetiva redução dos impactos ambientais, existe uma distância considerável.
O SAF não é uma tecnologia única. É uma família de combustíveis produzidos por diferentes rotas tecnológicas e diferentes matérias-primas. Por isso, uma avaliação séria não pode simplesmente classificar todo SAF como “combustível sustentável”. É necessário perguntar: sustentável a partir de quê, produzido onde, com qual energia, utilizando quais recursos naturais e substituindo qual quantidade de combustível fóssil?
1. A primeira controvérsia: confiabilidade de suprimento
A aviação é um dos setores mais difíceis de eletrificar ou substituir diretamente. Isso torna a disponibilidade de combustível uma questão estratégica. Uma aeronave comercial não pode simplesmente interromper sua operação porque determinada matéria-prima deixou de estar disponível ou porque uma safra agrícola foi inferior à esperada.
Entretanto, grande parte das rotas atuais de SAF depende de cadeias de suprimento que podem ser limitadas e sujeitas a competição com outros usos.
Óleos usados, gorduras animais, resíduos agrícolas, resíduos florestais, etanol e outras matérias-primas são recursos disputados por diferentes setores. Quanto maior a demanda por SAF, maior tende a ser a competição por essas matérias-primas.
Surge, portanto, uma questão incômoda: de onde virá o combustível necessário para abastecer uma frota aérea global crescente sem transformar resíduos escassos em commodities estratégicas?
A resposta não pode ser simplesmente “aumentar a produção”. É preciso demonstrar que a oferta pode crescer suficientemente rápido sem provocar deslocamento de outros usos, aumento de preços, mudança indireta do uso da terra ou dependência excessiva de determinadas regiões produtoras.
2. A acessibilidade: o combustível sustentável pode se tornar um combustível elitista
Outro ponto controverso é o preço. O SAF permanece, em muitas circunstâncias, mais caro que o querosene convencional. Dependendo da rota tecnológica, matéria-prima, localização, escala e incentivos considerados, essa diferença pode ser substancial. Isso cria um dilema.
Se o SAF for obrigatório, os custos adicionais terão de ser absorvidos pelas companhias aéreas, pelos passageiros, pelos governos ou por uma combinação desses agentes.
Se for subsidiado, parte do custo será transferida para os contribuintes.
Se for incorporado às tarifas, viajar de avião poderá se tornar progressivamente mais caro.
E se a política climática exigir SAF em quantidade crescente sem que a oferta acompanhe a demanda, o resultado poderá ser uma combinação de escassez, aumento de preços e concentração de mercado.
A sustentabilidade corre então o risco de adquirir uma característica paradoxal: tornar a aviação “verde” mais acessível para quem possui maior capacidade de pagamento e mais restritiva para a população de menor renda.
3. O problema oculto da água
A produção de SAF também pode apresentar uma dimensão frequentemente subestimada: água.
Algumas rotas dependem diretamente de culturas agrícolas. Outras dependem de hidrogênio, cuja produção pode exigir grandes quantidades de água, particularmente quando se considera a necessidade de produzir hidrogênio de baixa emissão em regiões com recursos hídricos limitados.
Isso introduz uma questão particularmente sensível em um planeta sujeito a crescente variabilidade hidrológica: como produzir grandes volumes adicionais de combustível para aviação sem aumentar a pressão sobre recursos hídricos já submetidos a estresse?
A resposta dependerá da tecnologia, da localização e da fonte de água. Mas a simples classificação de um combustível como “sustentável” não responde a essa pergunta.
4. SAF e vulnerabilidade a secas
A dependência de biomassa e de determinadas matérias-primas agrícolas cria outro problema: a exposição aos extremos climáticos que o próprio SAF pretende ajudar a combater.
Secas severas podem reduzir produtividade agrícola, disponibilidade de biomassa e geração hidrelétrica, justamente em momentos nos quais a produção de combustíveis alternativos pode precisar de mais energia.
Imagine-se uma cadeia baseada em culturas agrícolas destinadas, direta ou indiretamente, à produção de combustível. Uma grande seca reduz a produtividade. A matéria-prima se torna mais cara. A produção de SAF diminui. O preço sobe. Ao mesmo tempo, aumenta a competição por alimentos, água e outros usos da biomassa.
O fenômeno pode produzir uma espécie de círculo de vulnerabilidade climática: mudança climática → seca → menor disponibilidade de matéria-prima → aumento do custo do SAF → menor oferta de combustível sustentável → maior dependência das alternativas disponíveis. Quanto mais concentrada geograficamente estiver a produção, maior poderá ser a exposição a eventos climáticos regionais.
5. E as cheias?
O problema não se limita às secas. Enchentes podem interromper estradas, ferrovias, portos, oleodutos, instalações industriais e unidades de processamento. Podem destruir estoques de biomassa, interromper a produção agrícola e comprometer infraestrutura energética.
Uma cadeia global de SAF não será composta apenas pela refinaria que transforma matéria-prima em combustível. Ela dependerá de uma extensa infraestrutura de coleta, armazenamento, processamento, transporte e distribuição.
Quanto mais complexa a cadeia, maior o número de pontos potenciais de interrupção. A resiliência climática da cadeia de SAF, portanto, deveria ser avaliada com o mesmo rigor aplicado à própria redução de emissões.
6. Segurança: não basta o combustível ser “verde”
Existe ainda uma distinção importante entre segurança ambiental e segurança energética.
O SAF precisa atender rigorosos requisitos de qualidade, estabilidade, armazenamento, transporte, mistura e desempenho aeronáutico. Pequenas diferenças nas propriedades físico-químicas podem ter consequências importantes em um setor no qual a segurança operacional não admite improvisações.
Além disso, algumas rotas de produção utilizam matérias-primas e processos que exigem infraestrutura industrial sofisticada, hidrogênio, catalisadores, altas temperaturas, pressão e grandes quantidades de energia.
A segurança da aviação depende, portanto, não apenas do combustível em si, mas da confiabilidade de toda a cadeia que o produz e entrega.
E há outra dimensão: segurança de abastecimento. Se o SAF representar parcela crescente do combustível utilizado mundialmente, a aviação poderá ficar mais dependente de determinadas matérias-primas, tecnologias, produtores ou regiões geográficas.
Uma transição energética que reduz a dependência do petróleo, mas cria novas dependências críticas, não elimina o problema geopolítico. Apenas muda o seu endereço.
7. A questão mais delicada: quanto o SAF realmente reduz as emissões?
Talvez o ponto mais controverso seja justamente aquele que parece mais simples. SAF não significa automaticamente zero emissões.
O benefício climático depende de toda a cadeia de produção: origem da matéria-prima, uso da terra, energia empregada, processamento, transporte, hidrogênio utilizado, eficiência da conversão e destino alternativo da matéria-prima.
É necessário avaliar o chamado ciclo de vida. Um combustível produzido a partir de resíduos pode apresentar desempenho climático muito diferente daquele produzido a partir de uma matéria-prima agrícola cultivada especificamente para esse fim.
Da mesma maneira, um SAF produzido utilizando eletricidade de baixa emissão e hidrogênio de baixa intensidade de carbono pode apresentar uma pegada muito diferente daquela de uma rota dependente de energia fóssil.
O rótulo “SAF” não resolve essa equação. O que importa não é apenas o que sai do escapamento da aeronave, mas o que aconteceu antes de o combustível chegar ao tanque.
8. O risco da contabilidade criativa do carbono
Há ainda o risco de transformar a contabilização de emissões em uma espécie de exercício contábil excessivamente abstrato.
Se determinado carbono capturado pela biomassa é contabilizado como compensação das emissões futuras, é preciso demonstrar que essa remoção é real, adicional, mensurável, permanente quando necessário e corretamente atribuída.
Caso contrário, pode-se produzir um combustível com aparência de baixo carbono sem obter redução equivalente na concentração atmosférica de gases de efeito estufa.
O perigo é transformar “emissão evitada” em sinônimo automático de “impacto ambiental eliminado”. São conceitos diferentes.
9. SAF também possui impactos ambientais
Outro ponto frequentemente omitido no discurso promocional é que SAF não elimina automaticamente os impactos ambientais associados à produção de combustíveis.
Há impactos relacionados à agricultura, fertilizantes, água, uso da terra, biodiversidade, transporte de matérias-primas, processamento industrial, infraestrutura e consumo energético. Dependendo da rota, também podem existir impactos sobre qualidade do ar e emissões não-CO₂ associadas à própria operação aeronáutica. Portanto, seria um erro transformar o SAF em uma espécie de certificado ambiental para a aviação.
A pergunta correta não é: “SAF é sustentável?” A pergunta correta é: “Qual SAF, produzido por qual rota, com qual matéria-prima, em qual região, utilizando qual energia e qual quantidade de recursos naturais, proporciona qual redução líquida de impactos ambientais?”
Essa pergunta é muito menos confortável, mas é cientificamente muito mais honesta.
10. O paradoxo da escala
Talvez o maior desafio seja justamente a escala. É relativamente simples demonstrar que uma determinada tecnologia funciona em uma planta-piloto ou em um volume limitado de produção. Outra coisa é produzir combustível suficiente para atender uma parcela significativa da aviação mundial.
Quando a escala aumenta, aparecem problemas que não necessariamente estavam presentes na demonstração inicial: disponibilidade de matéria-prima, logística, infraestrutura, água, energia, financiamento, mão de obra, concorrência por recursos e custos. É nesse ponto que muitas promessas tecnológicas encontram seu verdadeiro teste.
A pergunta não é se podemos produzir SAF. Já sabemos que podemos. A pergunta é se podemos produzir SAF suficiente, de forma confiável, econômica e ambientalmente sustentável, para transformar significativamente a aviação mundial.
11. SAF: solução ou componente da solução?
O erro talvez esteja em exigir que o SAF seja uma solução absoluta. Ele pode ser uma ferramenta importante para a descarbonização da aviação, especialmente nos segmentos em que a eletrificação direta apresenta limitações técnicas significativas. Mas isso não significa que qualquer expansão do SAF seja automaticamente sustentável.
Uma estratégia racional deveria combinar eficiência operacional, renovação de frotas, otimização de rotas, avanços tecnológicos, combustíveis sustentáveis de diferentes rotas, eletrificação onde tecnicamente possível, produção de hidrogênio e combustíveis sintéticos quando economicamente justificáveis, além de uma avaliação rigorosa dos impactos de todo o ciclo de vida.
A grande ameaça é transformar o SAF em uma nova versão do “tecno-otimismo automático”: acreditar que uma sigla associada à palavra Sustainable seja suficiente para resolver um problema extremamente complexo. Não é.
SAF pode reduzir emissões. Mas redução potencial não é redução garantida; sustentabilidade certificada não significa impacto ambiental zero; e capacidade técnica de produção não significa disponibilidade econômica em escala global.
No fim, a verdadeira sustentabilidade do SAF terá de sobreviver a cinco testes simultâneos: confiabilidade de suprimento, acessibilidade econômica, resiliência climática, segurança energética e ambiental e redução efetiva e mensurável dos impactos ambientais.
Se não passar por todos eles, o SAF poderá ser sustentável no nome, parcialmente sustentável na prática e, paradoxalmente, insuficiente justamente na escala necessária para cumprir a promessa que lhe foi atribuída.
Captura e Armazenamento de Carbono: a promessa de segurança climática sob escrutínio
A Captura e Armazenamento de Carbono (CCS – Carbon Capture and Storage) costuma ser apresentada como uma das tecnologias capazes de conciliar a continuidade do uso de combustíveis fósseis com a redução das emissões de dióxido de carbono. A lógica parece simples: capturar o CO₂ antes que seja lançado à atmosfera, transportá-lo e confiná-lo por longos períodos em formações geológicas profundas. O problema começa quando se abandona a simplicidade do conceito e se examina a complexidade de sua operação em escala industrial.
A controvérsia não está em negar que o CCS possa funcionar. Ele pode. A questão é outra: em que condições, a que custo, com que confiabilidade, durante quanto tempo e com qual redução líquida efetiva das emissões? Entre a captura de uma molécula de CO₂ na chaminé e a garantia de que ela permanecerá isolada da atmosfera durante séculos existe uma cadeia tecnológica, econômica, regulatória e ambiental extremamente complexa.
1. A confiabilidade: capturar não significa eliminar
O primeiro ponto controverso é a própria confiabilidade do sistema de captura. Uma instalação de CCS não é um equipamento isolado, mas uma cadeia composta por captura, compressão, condicionamento, transporte, injeção, monitoramento e armazenamento. Uma falha em qualquer elo pode comprometer o desempenho do conjunto.
Além disso, a captura de CO₂ exige energia. Essa penalidade energética reduz a eficiência da instalação e pode aumentar o consumo de combustível para produzir a mesma quantidade de energia ou produto. Assim, parte da energia que poderia ser destinada à sociedade passa a ser utilizada para capturar, comprimir, transportar e armazenar o próprio carbono.
Surge, portanto, uma pergunta incômoda: quanto CO₂ é realmente evitado quando se contabiliza todo o ciclo do CCS?
A resposta não pode considerar apenas o volume capturado na fonte. É necessário descontar as emissões associadas ao fornecimento de energia adicional, à produção e manutenção dos equipamentos, ao transporte, à compressão, à infraestrutura e, quando aplicável, à cadeia de produção e transporte do combustível utilizado pela instalação.
O indicador relevante não deveria ser simplesmente toneladas de CO₂ capturadas, mas toneladas de CO₂ efetivamente evitadas em termos líquidos.
2. A acessibilidade: uma tecnologia que não é igualmente acessível
Outro aspecto frequentemente subestimado é a acessibilidade econômica e territorial. CCS demanda grandes investimentos iniciais e infraestrutura especializada. É particularmente complexo para fontes de emissão menores, dispersas ou geograficamente distantes de locais adequados para armazenamento. Grandes instalações industriais podem apresentar melhores economias de escala, mas isso não significa que toda fonte emissora possa ser economicamente conectada a uma rede de captura e armazenamento.
A solução exige, em muitos casos, uma verdadeira “economia do carbono”: redes de dutos, terminais, unidades de compressão, instalações de armazenamento, sistemas de medição e monitoramento e estruturas regulatórias capazes de atribuir responsabilidades durante décadas ou séculos.
Essa característica cria uma contradição potencial: uma tecnologia concebida para reduzir emissões pode exigir uma infraestrutura gigantesca justamente para movimentar e administrar o resíduo produzido pelo sistema energético-industrial.
Em países ou regiões com menor capacidade de investimento, infraestrutura insuficiente, grandes distâncias entre fontes emissoras e reservatórios geológicos ou estruturas regulatórias incipientes, o CCS pode ser economicamente muito menos acessível.
3. Secas: quando a escassez de água encontra a captura de carbono
A vulnerabilidade a secas e ondas de calor merece atenção especial. Muitos processos industriais associados à captura de CO₂ possuem demandas adicionais de energia e, dependendo da tecnologia empregada e da configuração da instalação, podem aumentar as necessidades de água para resfriamento e processos auxiliares.
Em situações de estresse hídrico, isso pode criar uma competição entre diferentes usos da água: abastecimento humano, agricultura, ecossistemas e geração ou produção industrial.
O paradoxo é evidente: uma tecnologia destinada a enfrentar uma ameaça ambiental global pode ampliar determinadas pressões ambientais locais quando implantada em regiões climaticamente vulneráveis.
Isso não significa que todo projeto de CCS seja necessariamente intensivo em água ou inviável em regiões secas. Significa que a análise ambiental precisa considerar o risco climático local, e não apenas a quantidade de CO₂ capturada.
4. Cheias e eventos extremos: infraestrutura que também pode ser atingida pelo clima
O CCS tampouco está imune aos eventos climáticos extremos. Unidades de captura, estações de compressão, terminais, dutos e instalações de injeção podem estar expostos a inundações, tempestades severas, deslizamentos, incêndios, ondas de calor e outros eventos extremos.
A vulnerabilidade é particularmente importante porque o sistema depende de continuidade operacional. Uma interrupção na captura pode resultar na liberação temporária do CO₂ que deveria ser capturado; uma interrupção no transporte pode exigir armazenamento intermediário; e uma interrupção prolongada pode comprometer toda a cadeia produtiva.
O CCS, portanto, não deve ser avaliado apenas como tecnologia de mitigação climática, mas também como infraestrutura que precisa demonstrar resiliência climática.
É uma distinção fundamental: uma infraestrutura pode contribuir para reduzir emissões e, simultaneamente, ser vulnerável às consequências das mudanças climáticas.
5. Segurança: o carbono não desaparece
Talvez o maior problema conceitual seja a percepção de que o CCS simplesmente “faz desaparecer” o carbono. Ele não desaparece. É deslocado da atmosfera para outro lugar.
O CO₂ capturado precisa ser comprimido, transportado e injetado. Em determinadas condições, altas concentrações de CO₂ podem representar riscos à segurança humana, pois o gás pode deslocar o oxigênio em ambientes confinados ou topograficamente desfavoráveis.
A segurança dos dutos e instalações de transporte também precisa ser considerada. O CO₂ apresenta propriedades diferentes das de combustíveis convencionais e exige critérios específicos de projeto, operação, monitoramento e resposta a emergências.
No armazenamento geológico, o desafio é ainda maior: é necessário demonstrar que o reservatório possui características adequadas para manter o CO₂ confinado durante períodos extremamente longos.
6. O risco de vazamento: pequeno não significa irrelevante
A principal promessa ambiental do CCS depende de uma hipótese essencial: o carbono permanecerá armazenado.
Entretanto, nenhum sistema de armazenamento geológico pode ser tratado como uma “caixa-preta eterna”. A avaliação precisa considerar possíveis caminhos de migração, integridade das formações geológicas, poços antigos, falhas geológicas e mudanças de pressão no reservatório. Mesmo que a probabilidade de vazamento seja baixa em um determinado projeto, a análise precisa considerar a escala temporal envolvida. Uma taxa de retenção aparentemente excelente durante algumas décadas não equivale automaticamente a uma garantia de permanência durante séculos ou milênios.
E existe uma questão adicional: quem será responsável pelo armazenamento no futuro? A empresa que capturou o carbono? O operador do reservatório? O Estado? As futuras gerações?
A transferência de responsabilidade para o poder público após o encerramento do projeto pode transformar uma obrigação empresarial de longo prazo em um passivo ambiental intergeracional.
7. Redução efetiva dos impactos ambientais: capturar CO₂ não é sinônimo de sustentabilidade
Outro ponto controverso está na tendência de utilizar a quantidade de CO₂ capturado como principal indicador de desempenho. Isso pode gerar uma visão excessivamente simplificada. Uma avaliação ambiental completa deveria considerar, entre outros fatores:
Emissões diretas e indiretas;
Consumo adicional de energia;
Consumo e disponibilidade de água;
Ocupação territorial;
Materiais e infraestrutura necessários;
Impactos da mineração e fabricação dos equipamentos;
Transporte e compressão do CO₂;
Riscos associados ao armazenamento;
Emissões fugitivas da cadeia energética;
Impactos sobre biodiversidade;
Geração e disposição de resíduos;
Riscos de acidentes; e
Emissões associadas à própria construção da infraestrutura.
Somente depois dessa contabilidade seria possível determinar a redução líquida de impactos ambientais. O CCS pode apresentar excelentes resultados quando aplicado a determinadas fontes industriais nas quais as emissões são particularmente difíceis de eliminar. Mas isso não significa que seja automaticamente a melhor solução para todas as fontes emissoras.
8. O risco do “lock-in” fóssil
Existe ainda uma dimensão estratégica particularmente controversa: o risco de o CCS ser utilizado para prolongar a vida econômica de ativos intensivos em carbono. Se a possibilidade de captura de CO₂ for interpretada como uma licença para continuar utilizando carvão, petróleo ou gás indefinidamente, a tecnologia poderá reduzir o incentivo econômico à substituição das fontes emissoras.
Surge então o chamado carbon lock-in: investimentos, infraestrutura, contratos e cadeias industriais continuam dependentes de combustíveis fósseis porque existe a expectativa de que suas emissões poderão ser posteriormente capturadas.
Nesse cenário, o CCS deixa de ser exclusivamente uma ferramenta de redução de emissões residuais e passa a funcionar como mecanismo de prolongamento de um modelo energético existente.
9. CCS: solução climática ou seguro para o passado?
A discussão madura sobre CCS não deveria ser pautada por uma escolha binária entre “a favor” ou “contra” a tecnologia. Existem aplicações nas quais a captura de carbono pode desempenhar papel relevante, especialmente em processos industriais nos quais as emissões são difíceis de eliminar por outras alternativas. O problema surge quando uma tecnologia potencialmente útil em determinados nichos é transformada em solução universal para a descarbonização.
A pergunta correta não é: “Quanto CO₂ podemos capturar?” Mas: “Quanto CO₂ podemos evitar, de forma líquida, confiável, economicamente justificável, ambientalmente segura e resiliente aos eventos climáticos extremos?”
Essa mudança de pergunta altera profundamente a avaliação. O CCS não deve receber um cheque em branco ambiental. Deve ser submetido ao mesmo rigor aplicado a qualquer outra tecnologia: análise de ciclo de vida, custo-benefício, confiabilidade, segurança, disponibilidade de recursos, vulnerabilidade climática, riscos ambientais e responsabilidade de longo prazo.
Porque capturar carbono não é o mesmo que eliminar emissões; armazenar carbono não é o mesmo que fazê-lo desaparecer; e anunciar toneladas capturadas não é o mesmo que demonstrar toneladas efetivamente evitadas.
O verdadeiro teste do CCS não será a quantidade de carbono que conseguirá capturar em um relatório corporativo. Será a capacidade de demonstrar, durante décadas e além delas, que o carbono realmente deixou de impactar a atmosfera sem transferir para a sociedade, para o território ou para as futuras gerações riscos e custos que hoje permanecem ocultos.
Hidrogênio Verde: entre a promessa de descarbonização e os limites da realidade
O hidrogênio verde tornou-se uma das grandes apostas da transição energética. É frequentemente apresentado como combustível do futuro, capaz de descarbonizar setores nos quais a eletrificação direta encontra limitações, como siderurgia, indústria química, fertilizantes, transporte marítimo e determinados processos industriais de alta temperatura.
A narrativa é sedutora: utilizar eletricidade renovável para produzir hidrogênio por eletrólise da água, sem emissão direta de CO₂, e posteriormente utilizá-lo como combustível ou matéria-prima. Mas entre essa elegância conceitual e sua aplicação em escala industrial existe uma cadeia tecnológica complexa, cara, energeticamente exigente e vulnerável a diversos fatores.
O problema não é afirmar que o hidrogênio verde seja inviável. O problema é tratá-lo como inevitável, universal e ambientalmente virtuoso antes de demonstrar que consegue ser confiável, acessível, seguro, resiliente e efetivamente superior às alternativas disponíveis.
1. Confiabilidade: o elo frágil entre sol, vento e moléculas
O primeiro desafio está na confiabilidade do suprimento energético. O hidrogênio verde depende, em sua forma mais convencional, de eletricidade renovável para alimentar eletrolisadores. Quando essa eletricidade provém predominantemente de fontes variáveis, como solar e eólica, surge um problema elementar: o eletrolisador não controla quando o Sol brilha ou quando o vento sopra.
A produção de hidrogênio passa, portanto, a depender da disponibilidade da fonte elétrica, da capacidade de transmissão, do dimensionamento dos eletrolisadores e, eventualmente, de sistemas de armazenamento de eletricidade ou de hidrogênio.
Isso cria uma cadeia de dependências: sol/vento → eletricidade → eletrólise → hidrogênio → compressão → armazenamento → transporte → utilização. Cada etapa introduz perdas, custos, equipamentos e possibilidades de falha.
Há ainda uma questão de utilização dos ativos. Um eletrolisador projetado para operar muitas horas por ano precisa de eletricidade abundante e relativamente barata. Se operar poucas horas devido à intermitência das fontes renováveis, o custo do hidrogênio tende a aumentar porque o investimento de capital é distribuído sobre uma quantidade menor de quilogramas produzidos.
O paradoxo é evidente: quanto mais se busca disponibilidade contínua do hidrogênio, maior tende a ser a necessidade de complementar a variabilidade das fontes renováveis.
2. Acessibilidade: o hidrogênio verde pode ser abundante, mas não necessariamente barato
A segunda controvérsia é econômica. O hidrogênio não é uma fonte primária de energia. É um vetor energético. Isso significa que primeiro é necessário gastar energia para produzi-lo.
Para produzir hidrogênio por eletrólise, é necessário consumir eletricidade, além de água e infraestrutura. Depois, o gás precisa ser condicionado, comprimido, armazenado e transportado, etapas que também consomem energia. O processo de liquefação, envolvendo etapas de pressurização e resfriamento, consome muita energia (40% da energia do hidrogênio deve ser gasta para liquefazê-lo). O resultado é uma cadeia na qual uma parcela significativa da energia elétrica originalmente produzida é perdida antes que o hidrogênio chegue ao usuário final.
Essa característica levanta uma questão fundamental: por que utilizar eletricidade renovável para produzir hidrogênio e depois reconverter ou utilizar essa molécula quando seria possível, em determinadas aplicações, utilizar diretamente a eletricidade?
Quando a eletrificação direta é tecnicamente possível, ela frequentemente elimina etapas intermediárias e respectivas perdas.
O hidrogênio verde tende a fazer mais sentido justamente onde a eletrificação direta é difícil ou impossível. Transformá-lo, entretanto, em solução para qualquer aplicação energética pode resultar em uma utilização energeticamente ineficiente de uma commodity potencialmente escassa e cara.
3. Água: a contradição em regiões submetidas à seca
A expressão “hidrogênio verde” frequentemente transmite uma imagem de abundância e pureza ambiental. Mas existe um recurso indispensável que não pode ser ignorado: água.
A eletrólise exige água de qualidade adequada. Em regiões com abundância hídrica, isso pode representar um desafio administrável. Em regiões áridas ou sujeitas a estresse hídrico, porém, a situação é diferente.
A implantação de grandes polos de hidrogênio verde em regiões com elevada disponibilidade solar ou eólica pode coincidir justamente com áreas onde a disponibilidade de água doce é limitada.
A alternativa de utilizar água do mar e dessalinização resolve parte do problema técnico, mas não elimina o problema ambiental e energético. A dessalinização exige energia, infraestrutura e gestão adequada da salmoura e de outros impactos associados.
Surge, assim, um paradoxo: produzir energia limpa em uma região seca pode exigir água; produzir hidrogênio a partir dessa energia pode exigir ainda mais infraestrutura hídrica; e obter água do mar pode exigir energia adicional.
O projeto pode continuar sendo tecnicamente possível, mas deixa de ser ambientalmente trivial.
4. Cheias e eventos climáticos extremos: a infraestrutura também é vulnerável
Se as secas representam um risco hídrico, as cheias, tempestades, furacões, ciclones e precipitações extremas representam outro tipo de ameaça.
Grandes projetos de hidrogênio verde tendem a integrar instalações industriais, subestações elétricas, linhas de transmissão, sistemas de armazenamento, tubulações, compressores, unidades de dessalinização e infraestrutura portuária. A concentração de tantos ativos em um mesmo complexo cria uma exposição significativa a eventos extremos.
Uma inundação pode interromper o fornecimento de energia ou água, danificar equipamentos, bloquear estradas e ferrovias ou impedir o transporte do hidrogênio.
Assim como ocorre com outras tecnologias da transição energética, a redução das emissões não elimina a necessidade de adaptação climática da própria infraestrutura.
Um projeto de hidrogênio verde resiliente precisa demonstrar não apenas que reduz emissões em condições normais, mas que consegue permanecer seguro e operacional diante das condições climáticas para as quais foi projetado.
5. Segurança: o hidrogênio não é um gás convencional
Outro ponto frequentemente minimizado é a segurança. O hidrogênio possui características físico-químicas particulares. É uma molécula extremamente leve, apresenta ampla faixa de inflamabilidade no ar e requer cuidados específicos em sistemas de produção, compressão, armazenamento e transporte. Seu pequeno tamanho molecular também impõe desafios de materiais, vedação e controle de vazamentos.
Isso não significa que o hidrogênio seja intrinsecamente inseguro. Significa que sua utilização em larga escala requer engenharia, normas, treinamento, sensores, sistemas de detecção, ventilação, afastamentos e procedimentos de emergência específicos.
O problema é particularmente relevante quando se imagina uma economia do hidrogênio distribuída por cidades, portos, indústrias, rodovias e instalações de armazenamento. Quanto maior a escala, maior a necessidade de uma infraestrutura de segurança proporcional.
6. O risco invisível: vazamentos de hidrogênio
Existe ainda uma questão ambiental emergente: o vazamento de hidrogênio para a atmosfera.
Embora o hidrogênio não seja um gás de efeito estufa como o CO₂, sua liberação para a atmosfera pode modificar processos químicos atmosféricos e interferir, direta ou indiretamente, na concentração de gases de efeito estufa e na química da atmosfera.
Isso cria uma distinção importante entre: “hidrogênio sem emissão de CO₂ na produção” e “hidrogênio ambientalmente neutro em todo o ciclo de vida”. São afirmações diferentes. Quanto maior a infraestrutura de produção, transporte, armazenamento e utilização, maior a importância de controlar e medir as taxas de vazamento.
7. A eficiência: transformar eletricidade em hidrogênio custa energia
Talvez a maior controvérsia econômica e energética esteja na eficiência de toda a cadeia.
A eletricidade renovável precisa alimentar o eletrolisador. O hidrogênio produzido precisa eventualmente ser comprimido ou liquefeito. Depois pode ser transportado e armazenado. Finalmente, quando utilizado para produzir novamente eletricidade ou movimentar um veículo, ocorrem novas perdas.
A cadeia pode ser representada de maneira simplificada: eletricidade renovável → hidrogênio → compressão/armazenamento/transporte → uso final. Cada seta representa energia, equipamentos e perdas.
Quando a aplicação pode ser atendida diretamente por eletricidade, acrescentar a etapa do hidrogênio pode significar usar várias unidades de eletricidade para entregar uma unidade equivalente de energia útil.
Por isso, a questão ambiental não pode ser reduzida ao fato de a eletrólise não emitir CO₂ diretamente. É necessário perguntar: quanto CO₂ foi evitado por unidade de eletricidade renovável utilizada para produzir o hidrogênio? Essa é uma métrica muito mais exigente.
8. “Verde” não significa automaticamente sustentável
A classificação como “verde” normalmente está associada à fonte de eletricidade utilizada na produção do hidrogênio. Mas sustentabilidade é um conceito muito mais amplo. Um projeto pode utilizar eletricidade renovável e ainda produzir impactos relacionados a:
Consumo de água;
Dessalinização;
Uso do solo;
Mineração de materiais;
Fabricação dos eletrolisadores;
Construção de infraestrutura;
Linhas de transmissão;
Armazenamento;
Transporte;
Vazamentos;
Descarte e reciclagem de equipamentos;
Biodiversidade;
Impactos portuários; e
Emissões indiretas associadas à cadeia de suprimentos.
Portanto, “verde” é uma característica da rota de produção; não é um certificado automático de sustentabilidade de todo o sistema.
9. O risco do “desvio” de eletricidade renovável
Existe ainda uma questão estratégica. A eletricidade renovável é um recurso valioso. Quando utilizada diretamente, pode substituir eletricidade produzida por fontes fósseis. Quando utilizada para produzir hidrogênio, transforma-se em outra commodity energética.
Isso pode ser racional em setores nos quais o hidrogênio seja indispensável. Mas, se o hidrogênio for produzido para aplicações que poderiam ser eletrificadas diretamente, pode ocorrer uma utilização menos eficiente de uma infraestrutura renovável limitada. Em outras palavras: nem toda eletrificação deve virar hidrogênio.
O hidrogênio verde deveria ser direcionado prioritariamente para os segmentos em que sua utilização ofereça vantagem técnica, econômica ou ambiental suficientemente clara.
10. A acessibilidade geográfica: produzir longe de consumir
Outro problema está na localização. Os melhores recursos solares e eólicos nem sempre estão próximos dos maiores centros industriais consumidores de hidrogênio. Isso pode gerar um dilema: produzir hidrogênio onde a energia renovável é barata e transportá-lo para onde ele é necessário ou produzir próximo ao consumidor utilizando energia potencialmente mais cara.
O transporte a longas distâncias pode exigir compressão, liquefação, conversão química em derivados como amônia ou utilização de outros vetores, adicionando infraestrutura e perdas.
A ideia de transportar grandes volumes de hidrogênio pelo mundo como hoje se transporta petróleo ou GNL é, portanto, muito mais complexa do que a simples substituição de uma molécula por outra.
11. A promessa climática precisa ser comparada com alternativas reais
A avaliação do hidrogênio verde também não pode ocorrer no vazio. Para cada aplicação, deveria ser comparado com alternativas como: eletrificação direta, eficiência energética, armazenamento elétrico, biocombustíveis sustentáveis, biogás, combustíveis sintéticos, hidrogênio de outras rotas e tecnologias industriais alternativas.
A pergunta não é simplesmente: “O hidrogênio verde reduz emissões?” Em determinadas circunstâncias, evidentemente pode reduzir. A pergunta mais relevante é: “O hidrogênio verde reduz mais emissões, com menor consumo de recursos, menor risco, maior confiabilidade e menor custo do que as alternativas disponíveis?” É essa comparação que deveria orientar as decisões de investimento.
12. O perigo da promessa antes da infraestrutura
Existe finalmente o risco político e econômico de criar uma expectativa de que o hidrogênio verde será capaz de resolver simultaneamente problemas de transporte, indústria, armazenamento de energia, geração elétrica e descarbonização de combustíveis.
A história das transições energéticas demonstra que nenhuma tecnologia é universal. O hidrogênio verde pode ser extremamente importante, mas sua importância pode ser justamente maior quando reconhecemos seus limites. O erro não seria investir em hidrogênio. O erro seria investir nele sem distinguir onde ele é indispensável, onde é competitivo e onde simplesmente acrescenta uma etapa desnecessária à cadeia energética.
13. O verdadeiro teste do hidrogênio verde
O hidrogênio verde não deveria ser julgado pela força de sua narrativa, pela quantidade de projetos anunciados ou pelo volume potencial de investimentos.
Deveria ser julgado por cinco perguntas objetivas:
É confiável? É acessível? É resiliente aos eventos climáticos extremos? É seguro? E reduz efetivamente os impactos ambientais quando analisado em todo o ciclo de vida?
Se a resposta for positiva, o hidrogênio verde terá um papel importante na transição energética. Se a resposta for positiva apenas mediante subsídios elevados, infraestrutura gigantesca, abundância excepcional de eletricidade renovável e condições climáticas e hídricas favoráveis, seu papel deverá ser muito mais seletivo.
E se a resposta depender de ignorar perdas energéticas, consumo de água, riscos de vazamento, vulnerabilidades climáticas e impactos da cadeia produtiva, estaremos diante de algo mais perigoso do que uma tecnologia cara: estaremos diante de uma promessa ambiental cuja imagem de sustentabilidade pode ser muito maior do que sua sustentabilidade efetiva.
O hidrogênio verde pode ser parte da solução. Mas transformar uma molécula em solução para tudo pode ser justamente a maneira mais rápida de transformar uma boa tecnologia em uma má política energética.
Conclusões
A transição energética não pode ser construída sobre promessas. Sustentabilidade não pode ser confundida com promessa tecnológica. Pode e deve ser construída sobre inovação, experimentação e novas tecnologias, mas somente depois que estas forem submetidas ao teste mais elementar da realidade: funcionam em escala, são economicamente acessíveis, são confiáveis, são seguras, são resilientes aos eventos climáticos extremos e produzem redução efetiva dos impactos ambientais?
SAF, CCS e hidrogênio verde representam tecnologias potencialmente importantes para a transição energética. Nenhuma delas deve ser descartada simplesmente por apresentar limitações, custos elevados ou desafios tecnológicos. O problema está justamente no extremo oposto: transformá-las antecipadamente em soluções universais, atribuindo-lhes uma maturidade, uma disponibilidade e uma sustentabilidade que ainda precisam ser demonstradas em escala.
É necessário considerar toda a cadeia: matérias-primas, energia, água, infraestrutura, transporte, armazenamento, fabricação dos equipamentos, uso do território, biodiversidade, emissões indiretas, riscos operacionais e vulnerabilidades climáticas.
No caso do SAF, a verdadeira questão não é saber se é possível produzir SAF, mas se será possível produzi-lo em quantidade suficiente, de maneira confiável, economicamente acessível e com redução líquida e mensurável dos impactos ambientais.
O CCS implica que na captura e a permanência do carbono fora da atmosfera existe uma cadeia complexa de compressão, transporte, injeção, monitoramento e responsabilidade de longo prazo. A tecnologia poderá ser particularmente relevante para emissões difíceis de eliminar, mas sua eficácia deve ser medida pelas toneladas de CO₂ efetivamente evitadas em termos líquidos, e não simplesmente pelas toneladas capturadas.
O hidrogênio verde produzido por eletrólise utilizando eletricidade renovável pode contribuir para a descarbonização de setores nos quais a eletrificação direta apresenta limitações. Entretanto, transformar eletricidade em hidrogênio, depois comprimi-lo, armazená-lo, transportá-lo e eventualmente reconvertê-lo em energia acrescenta etapas, custos e perdas. Água, infraestrutura, segurança, vazamentos e vulnerabilidade climática também fazem parte da equação.
“Baixo carbono”, “verde”, “sustentável” ou “capturado” não são atributos absolutos. São resultados que precisam ser demonstrados. Podem contribuir para a mitigação climática e, ao mesmo tempo, ser vulnerável às próprias mudanças climáticas que pretende combater. Uma infraestrutura concebida para reduzir emissões, mas incapaz de permanecer operacional diante dos eventos climáticos para os quais deveria estar preparada, não pode ser considerada plenamente sustentável. A mitigação climática não substitui a adaptação climática.
Recursos destinados a uma solução deixam de estar disponíveis para outras soluções. Capital, energia, água, território, minerais, infraestrutura e mão de obra especializada são recursos finitos. Assim, escolher uma tecnologia não significa apenas decidir onde investir; significa também decidir onde não investir.
A transição energética precisa combinar eficiência, eletrificação, renováveis, hidroeletricidade, biocombustíveis, energia nuclear, armazenamento, modernização das redes, combustíveis sustentáveis, hidrogênio e captura de carbono, quando e onde cada alternativa demonstrar desempenho superior ou complementar. Essas tecnologias não devem ser julgadas por sua identidade ideológica, mas pelo resultado que efetivamente entregam.
O princípio de precaução não significa rejeitar tecnologias existentes em nome de tecnologias futuras. Deve significar evitar que decisões irreversíveis sejam tomadas com base em premissas ainda não comprovadas. A sustentabilidade exige evidências, não apenas narrativas. Exige demonstração de escala, não apenas projetos-piloto. Exige competitividade ou, quando houver subsídios, transparência sobre quem paga a diferença. Exige confiabilidade durante todo o ciclo de operação, e não apenas em condições ideais. Exige segurança energética e operacional, e não apenas segurança climática. Exige resiliência diante de secas, cheias e eventos extremos. Exige contabilização integral dos impactos ambientais, e não apenas daquele indicador que favorece determinada tecnologia. E, sobretudo, exige comparação com as alternativas efetivamente disponíveis.
Uma tecnologia pode ser parte da solução sem ser a solução. Reconhecer seus limites não significa ser contrário à inovação. Significa levá-la a sério. O futuro energético será inevitavelmente tecnológico. Mas não será necessariamente determinado pelas tecnologias que hoje recebem as maiores promessas, os maiores investimentos ou os rótulos ambientais mais atraentes. Será determinado por aquelas capazes de sobreviver ao confronto com a realidade.
A sustentabilidade precisa passar pelo teste da realidade. Esta é a diferença entre apostar racionalmente em inovação e apostar que a inovação necessariamente resolverá o problema a tempo.
“O difícil, vocês sabem, não é fácil” (Vicente Matheus)
Zemánek)
Enio Fonseca – Engenheiro Florestal, Senior Advisor em questões socioambientais, Especialização em Proteção Florestal pelo NARTC e CONAF-Chile, em Engenharia Ambiental pelo IETEC-MG, em Liderança em Gestão pela FDC, em Educação Ambiental pela UNB, MBA em Gestão de Florestas pelo IBAPE, em Gestão Empresarial pela FGV. Atual CEO da Pack of Wolves Assessoria Socioambiental, Conselheiro do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico-FMASE. Ocupou as seguintes posições: Superintendente do IBAMA em MG; Superintendente de Gestão Ambiental do Grupo Cemig; Chefe do Departamento de Fiscalização e Controle Florestal do IEF; Conselheiro no Conselho de Política Ambiental do Estado de MG; Presidente FMASE; Gestor de Sustentabilidade Associação Mineradores de Ferro do Brasil; Diretor Meio Ambiente e Relações Institucionais da SAM Metais; Diretor de Responsabilidade Social e Ambiental da ALAGRO; Conselheiro do Instituto AME. Membro do IBRADES, ABDEM, ADIMIN. Conselheiro INTR. Articulista do Canal direitoambiental.com.
Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico – FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance. Autor de 27 e-books e coautor de 28 e-books. Articulista do Canal direitoambiental.com.
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