sexta-feira , 17 abril 2026
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Da Ilusão ao Equilíbrio: Repensando o Papel da Energia na Vida Humana

Por Enio Fonseca e Decio Michellis
“Quanto mais energia usarmos, melhor será o nosso bem-estar”. (Franco Battaglia)

Seus argumentos se baseiam no princípio de que, à medida que a eficiência melhora, as pessoas inevitavelmente consomem mais energia e que a própria prosperidade depende de um maior uso de energia. O acesso crescente a energia confiável possibilitou ao longo da história vidas mais longas, crescimento econômico e estabilidade social, enquanto a escassez de energia limitou oportunidades e bem-estar. Água potável precisa ser bombeada e tratada. A medicina moderna depende de refrigeração, esterilização e equipamentos de precisão. Idosos e as pessoas vulneráveis são protegidas pelo aquecimento e pela climatização. A segurança alimentar depende de fertilizantes, transporte e armazenamento refrigerado. Todas estas atividades dependem de energia confiável: educação, informação e oportunidades econômicas. A eletricidade deixou de ser um privilégio para tornar-se uma necessidade universal. Onde a energia é escassa, a vida é limitada, o bem-estar estagna ou regride. Economizar energia, portanto, significaria viver pior. Não se trata de utilizar a energia de forma perdulária e negligente, mas de inteligência na sua utilização: uso eficaz, eficiente e efetivo da energia no alinhamento consciente entre as necessidades, o propósito humano e os recursos naturais limitados do planeta Terra.

No debate sobre a transição energética a ênfase está sendo dada na escassez e na busca por metas de emissões líquidas zero, em vez de na abundância e na resiliência. A questão não é usar menos energia, mas construir sistemas energéticos mais limpos, mais confiáveis ​​e mais abundantes. Estamos obcecados pela neutralidade de carbono e pelas emissões líquidas zero, mas precisamos consumir energia com sabedoria, integrando ciência, respeito à vida a existência de todos os seres vivos, especialmente os seres humanos, o respeito próprio e o tratamento ético que todo nós merecemos.
O verdadeiro desafio é material: nossa civilização depende de recursos finitos e não renováveis. A cada ano, a humanidade consome cerca de 38 bilhões de barris de petróleo, 8,5 bilhões de toneladas de carvão e 4 trilhões de m3 cúbicos de gás natural.

O petróleo é matéria-prima da petroquímica. Produtos que dependem dele: plásticos, fertilizantes, fibras sintéticas, solventes, tintas, medicamentos, borrachas sintéticas e diversos produtos industriais. Sem petróleo suficiente, a indústria enfrenta falta de matéria-prima e aumento de preços.
Energia cara reduz atividade econômica, empresas produzem menos, os custos industriais aumentam e os investimentos diminuem.

O uso de combustíveis fósseis e dos produtos petroquímicos é a espinha dorsal de todas essas partes da vida, faz sentido dizer que é “altamente improvável” que uma eliminação gradual de combustíveis fósseis seja apoiada quando os consumidores e contribuintes perceberem o impacto no dia a dia. As energias renováveis (eólica, solar etc.) apenas geram eletricidade, enquanto o petróleo é base de muitos dos produtos de categoria essencial à sociedade atual. Com a tecnologia presente é impossível viver sem os mais de 6.000 produtos derivados de petróleo, que são a base dos nossos estilos de vida e da nossa economia. São fundamentais, por exemplo, em medicamentos, equipamentos médicos, vacinas, embalagens de alimentos frescos e congelados (só para citar algumas aplicações). Precisamos deles para alimentar veículos, geradores, fornos e fábricas, incluindo painéis solares, turbinas eólicas, transformadores, baterias e componentes de veículos elétricos.

A geração de eletricidade a partir de energia eólica, solar, hidrelétrica, carvão, gás natural e nuclear, eólica e solar são todos construídos com produtos, componentes e equipamentos feitos de derivadas de petróleo bruto. Os veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas também são construídos com produtos, componentes e equipamentos feitos a partir do petróleo bruto. Eletroeletrônicos que precisam de eletricidade para funcionar, como smartphones, computadores, data centers e máquinas de raio-X, são feitos com petroquímicos fabricados a partir de petróleo bruto. Sem combustíveis fósseis, não haveria nada que precisasse de eletricidade.

Mas ainda não temos um plano reserva para substituir produtos derivados do petróleo, em qualidade, disponibilidade e preço. Tentar substituir todos os subprodutos de combustível fóssil por biomateriais será impossível no curto prazo e extremamente difícil no longo prazo.

A civilização moderna é muitas vezes chamada de “civilização do petróleo” porque grande parte da nossa economia, tecnologia e estilo de vida depende direta ou indiretamente desse recurso energético. O petróleo concentra muita energia em pouco volume. Isso o tornou ideal para transporte e para a indústria. Grande parte do sistema de mobilidade mundial depende de derivados de petróleo. Sem petróleo barato, o sistema logístico global seria muito menor e mais lento.

Apesar da transição energética em curso, o petróleo continuará importante até 2050 ou mais. Isso acontece porque vários setores da economia são difíceis de eletrificar rapidamente.

Alguns meios de transporte pesado exigem combustíveis com alta densidade energética, algo que as baterias ainda não conseguem substituir facilmente, tais como aviação comercial, transporte marítimo, transporte rodoviário de longa distância com caminhões e maquinaria pesada.

Mesmo que o uso de petróleo como combustível diminua, o uso como matéria-prima industrial pode continuar forte. A petroquímica será uma das maiores fontes de crescimento da procura de petróleo nas próximas décadas.

Refinarias, oleodutos e frotas de veículos têm vida útil longa. Uma refinaria moderna pode operar 30 a 50 anos. Organizações como a Agência Internacional de Energia destacam que a transição energética é gradual, não instantânea.

Algumas tecnologias alternativas ainda estão em desenvolvimento e ainda precisam de escala global (competitividade, qualidade, quantidade e preço): combustíveis sintéticos, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação. Essas soluções ainda são mais caras que o os derivados do petróleo.

Segundo o World Energy Report 2025, a procura por petróleo e gás natural ainda deve crescer até 2050, contrariando estimativas anteriores. O sistema energético mundial é enorme e leva décadas para mudar.

Top Runner

A experiência do Japão após a crise do petróleo da década de 1970 ilustra como os conceitos de eficácia, eficiência e efetividade podem ser colocados em prática. Substituíram os discursos moralistas sobre sacrifícios pela excelência técnica: a abordagem Top Runner. É um modelo de política pública criado no Japão para aumentar a eficiência energética de produtos usando um princípio bem simples e inteligente: o melhor desempenho atual do mercado vira o padrão mínimo do futuro. Na prática o governo analisa os produtos disponíveis (carros, geladeiras, ar-condicionado, etc.); identifica o mais eficiente — o “top runner” (o líder); define esse nível (ou até melhor) como meta obrigatória futura para todos os fabricantes e dá um prazo (ex: 5–10 anos) para a indústria se adaptar. Se por exemplo, o carro mais eficiente faz 20 km/L, pela regra Top Runner em alguns anos, todos os carros precisam atingir ou superar isso. Esta abordagem incentiva inovação contínua, evita padrões mínimos fracos, faz o mercado inteiro evoluir junto e reduz consumo de energia e impacto ambiental. A abordagem começou no Japão e já foi aplicada a eletrodomésticos (geladeiras, TVs, ar-condicionado), veículos, equipamentos industriais etc. para alcançar o máximo desempenho por unidade de energia. Como consequência a economia tornou-se um subproduto da inovação, e não uma limitação a ela. Esta prática foi incorporada por outros países e regiões como a União Europeia. A abordagem Top Runner é, na prática:

  • Eficaz: define metas relevantes (melhor do mercado)
  • Eficiente: força melhoria sem desperdiçar recursos
  • Efetiva: gera impacto real e contínuo no tempo

O modelo Top Runner “puro” (como no Japão) não foi implementado oficialmente no Brasil, porém várias iniciativas brasileiras caminham na mesma lógica ou estão sendo adaptadas com base nele:

  • Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel): cria padrões de eficiência e o famoso selo (A a E), incentivando fabricantes a melhorar produtos e ajudando consumidores a escolher melhor. O Procel define níveis mínimos e classes, o Top Runner japonês usa o melhor produto como referência futura obrigatória.
  • Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE), ligado ao Inmetro: define padrões mínimos de eficiência (MEPS), classificando produtos como geladeiras, ar-condicionado, etc.

O Brasil está estudando a abordagem Top Runner, mas ainda em fase de adaptação, testando versões adaptadas. Está no estágio de eficiência “mínima obrigatória”, caminhando para eficiência “liderada pelo melhor do mercado”, ou seja, saindo de um modelo mais básico para algo mais próximo do Top Runner.

Eficiência Energética

A eficiência no uso da energia é um importante vetor no atendimento da demanda, contribuindo para a segurança energética, modicidade tarifária, competitividade da economia e para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Os índices mínimos de eficiência energética, conhecidos como MEPS (Minimum Energy Performance Standards), são fundamentais para promover o uso eficiente de energia no Brasil. Essas regulamentações estabelecem os níveis mínimos de desempenho energético que tanto equipamentos como até mesmo edificações devem atingir, assegurando que novos produtos lançados no mercado ou espaços construídos sejam mais eficientes e consumam menos energia. A implementação dos MEPS no Brasil começou com a Lei de Eficiência Energética (Lei nº 10.295/2001). Esta lei foi um marco, pois definiu os requisitos de eficiência energética para diversos equipamentos e edificações. A Norma de Desempenho (NBR 15575:2021) é um marco regulatório que estabelece parâmetros de desempenho para edificações habitacionais, incluindo requisitos de eficiência energética. Alguns dos requisitos mínimos de eficiência energética são:

  • Aproveitar a iluminação natural;
  • Minimizar perdas de temperatura;
  • Utilizar sistemas de automação predial para gerenciar os sistemas de iluminação, aquecimento, ventilação e ar-condicionado (HVAC);
  • Atender aos níveis gerais de iluminância nas diferentes dependências das construções habitacionais;
  • Avaliar a edificação em duas condições de uso: com ventilação natural e sem ventilação natural.

O atendimento aos requisitos mínimos da NBR 15575 pode garantir:

  • Menor uso de formas ativas de resfriamento ou aquecimento;
  • Menor necessidade de ativação do sistema de iluminação artificial;
  • Economia de energia elétrica.
  • A NBR 15575 é um instrumento fundamental para a promoção de práticas construtivas que atendam a padrões elevados de qualidade e sustentabilidade.
  • Existem ações complementares que buscam reduzir a demanda de energia nas residências, incluindo normas de desempenho (ABNT NBR Nº 15.220 e Nº 15.575), padrões de etiquetagem (PBE Edifica) e selos de endosso (Procel Edifica) de edificações, além do estímulo ao uso de sistemas alternativos de geração de energia em habitações de interesse social (HIS). Complementarmente destacamos alguns aspectos da eficiência energética em edificações:
  • Visão holística da edificação, considerando todos os seus sistemas de forma integrada e multifacetada, avaliando as estratégias adotadas, a localização e a adequação do projeto ao local (orientação, isolamento térmico, potencial de iluminação e aquecimento solar, acessibilidades etc.), bem como estabelecer estratégias de comissionamento para novas instalações e retrofit das existentes;
  • Obter soluções que alie custo-benefício, economia de energia e adaptação à missão para o abastecimento de energia das edificações;
  • Analisar o custo do ciclo de vida das edificações;
  • Resiliência energética;
  • Identificar a demanda crítica de energia;
  • Preparar para situações de emergência energética;
  • Atentar para testes de infraestrutura, equipamentos, combustível e sistema de geração de energia (geradores a diesel e geração distribuída de fontes renováveis);
  • Realizar constante avaliação da vulnerabilidade resultante da interrupção do fornecimento de energia (eletricidade e combustíveis líquidos e gasosos).

Uma referência internacional importante é o Código Internacional de Conservação de Energia (IECC – International Energy Conservation Code) é um código de construção criado pelo International Code Council. É um código modelo adotado por muitos governos para o estabelecimento de requisitos mínimos de projeto e construção para eficiência energética. O código é atualizado a cada 3 anos, para fornecer um padrão contínuo de melhores práticas para eficiência energética.

Negligenciando a segurança energética

A segurança energética não pode ser abordada apenas durante crises políticas ou de mercado como aconteceu recentemente no conflito do Irã com o fechamento do Estreito de Ormuz. É uma questão prioritária, uma necessidade estratégica essencial. Ao ser negligenciada seus efeitos vão além do setor energético: contamina todas as cadeias de suprimentos, elevando os preços por toda a economia. Em um mundo mais incerto e inseguro, a segurança energética é uma obrigação permanente de uma política pública sólida.

O mundo não sofreu escassez de gás natural, petróleo, derivados e gases de baixa emissão, sejam eles transportados por gasodutos ou liquefeitos. Mas ocorreu uma crise de segurança de abastecimento decorrente de condicionantes de supremacia geopolíticas, na qual energia passou de recurso central a elemento vulnerável. A política de segurança energética deve partir da realidade concreta, e não de preferências abstratas como descarbonização e emissões zero (Net Zero). A questão é se as infraestruturas e logísticas disponíveis são robustas o suficiente para fornecer petróleo e derivados, carvão, gás natural e energia onde e quando forem necessários (confiabilidade), a um custo acessível aos consumidores.

Anos de subinvestimento tornam essa questão cada vez mais difícil de responder, considerando o que deveria ser. A Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) considera que o Brasil precisa investir anualmente entre 4% a 5% do PIB em infraestrutura para atender às necessidades de desenvolvimento e modernização do país, o que representa cerca de R$ 350 bilhões por ano. Atualmente, o investimento real gira em torno de 2% do PIB. A China investe 14 % de seu PIB em infraestrutura.

Durante décadas acreditamos que rotas vitais sempre permaneceriam abertas e medidas de segurança mais rigorosas pudessem ser adiadas sem problemas. Os recentes ataques à infraestrutura energética no Oriente Médio são um choque de realidade de que esses ativos são vitais não apenas para a atividade econômica, mas também para a confiança no sistema como um todo na manutenção da sadia qualidade de vida que desfrutamos. Visões ideológicas e insegurança jurídica não raro, impedem o investimento em infraestrutura nacional que poderia ter atenuado o impacto de interrupções ocorridas no Estreito de Ormuz.

Quando a Lei do Clima (oficialmente “Lei de Liderança Climática e Proteção Comunitária”, ou CLCPA) foi promulgada em 2019, os prazos, a partir de 2030, pareciam muito distantes. A legislação climática e de transição energética foi quase inteiramente impulsionada por ativistas, onde as pessoas comuns geralmente não dão atenção e ou não fazem ideia de suas consequências. À medida que os prazos se aproximam, os investimentos avançam e os custos da geração de energia renovável começam a aparecer nas contas de luz, finalmente algumas dessas pessoas estão começando a despertar. Crescem as evidências de impedimentos atuais para um serviço seguro e adequado, com aumento dos apagões e interrupções. Afinal “tem culpa eu”?

Precisamos recolocar a segurança do abastecimento no centro da estratégia energética, tornado nosso sistema energético seguro, acessível e sustentável. Sem confiabilidade, estaremos mais expostos a interrupções, volatilidade dos preços e alternativas menos confiáveis. Geopolítica e a geoeconomia estão intrinsecamente interligadas, a capacidade de resistir a choques de suprimentos é um imperativo estratégico.

A energia nuclear está se tornando o caminho mais confiável para se obter eletricidade de base limpa e confiável para um futuro próspero a preços acessíveis. Ela fornece eletricidade estável de base e acessível, operando com altos fatores de capacidade, frequentemente acima de 92%, para gerar energia continuamente, independentemente das condições climáticas ou da hora do dia com custos mais baixos a longo prazo. Estão desenvolvendo tecnologias de reciclagem do “lixo” nuclear (o termo mais adequado seria combustível irradiado, que retém mais de 90% do seu potencial energético) o que significa um futuro da energia nuclear acessível e abundante. França, Rússia e China já estão reprocessando combustível irradiado para extrair mais valor e minimizar as necessidades de armazenamento a longo prazo. A reciclagem avançada em reatores rápidos (reatores de 5ª geração), pode aumentar a produção de energia em pelo menos dez vezes em comparação com o reprocessamento. A produção de combustível irradiado é constante, ou seja, a reciclagem transforma esse combustível nuclear irradiado em um recurso verdadeiramente renovável.

Não se pode comparar a geração contínua de eletricidade de base com a geração intermitente de energia eólica e solar em bases equivalentes. Embora os custos de implantação de energia eólica e solar estejam em queda, os custos indiretos necessários para tornar estas energias “firmes” são altos: investimentos adicionais em baterias (BESS) e ou hidrelétricas reversíveis, compensadores síncronos para estabilizar a rede elétrica (agora é necessário investir em robustez e resiliência do sistema) e reforços na transmissão de longa distância. Estes investimentos complementares e indispensáveis podem multiplicar o custo da eletricidade gerada por energia eólica e solar por dez ou mais.

Cada novo sistema de backup, linhas de transmissão adicionais, turbina de reserva subutilizada, cada unidade de armazenamento de bateria subaproveitada (o armazenamento de curto prazo suaviza oscilações de minutos e horas, mas não consegue suprir períodos de vários dias de baixa geração de energia), ou qualquer outro item de redundância é gratuito. As redes de distribuição não podem ser expandidas de forma arbitrária, rápida ou barata ou seja, cada nova onda de conexões de geração distribuída à rede aumenta as tarifas, enquanto materiais, equipamentos e capacidade de construção se tornam fatores limitantes. Medidores inteligentes não geram energia, são instrumentos de controle, ajudando a gerenciar a escassez, mas não a eliminam com aumento da pressão sobre a gestão de carga e as tarifas variáveis (e mais caras no momento que o consumidor mais precisa). Tarifas de rede dinâmicas e padrões de consumo variáveis significam que a indústria deverá operar quando o vento e o sol permitirem. Muitos processos industriais não podem operar nessas condições, pois o tempo de inatividade é dispendioso e as cadeias de suprimentos exigem sincronização. Inevitavelmente tudo isto acabará aparecendo na conta do consumidor. As demandas por subsídios transferem o ônus para os consumidores cativos (famílias), enquanto os cidadãos pagam duas vezes: por meio de impostos e das tarifas de eletricidade. Intenções nobres não importam, o que importa são os resultados.

Regulamentação excessiva, subsídios, mandatos e normas contábeis, contribuem para que o sistema de produção, transmissão e distribuição de energia apresentem uma trajetória de custos ascendente e inflacionária, impermeável a qualquer tentativa de mudança. Países e Estados com alta participação de energias renováveis dependentes do clima em sua matriz elétrica, como a Califórnia, têm visto aumentos sistêmicos nos preços da eletricidade devido aos custos totais do sistema, incluindo a exigência de 100% de reserva para cobrir os períodos em que o sol não brilha e o vento não sopra.

Abismo energético

Na economia energética e na energia ecológica, a energia retornada sobre a energia investida (EROEI ou ERoEI); ou retorno de energia sobre o investimento (EROI), é a proporção da quantidade de energia utilizável (o exergy) entregue de um determinado recurso de energia para a quantidade de exergy usada para obter esse recurso de energia. É uma medida distinta da eficiência energética, pois não mede as entradas de energia primária ao sistema, apenas energia utilizável. Quando o EROEI de um recurso é menor ou igual a um, essa fonte de energia se torna um “coletor de energia” líquido e não pode mais ser usada como fonte de energia, mas, dependendo do sistema, pode ser útil para armazenamento de energia (para exemplo, uma bateria). Uma medida relacionada Energy Store On Energy Invested (ESOEI) é usado para analisar sistemas de armazenamento. Para ser considerado viável como uma fonte de energia ou energia proeminente, um combustível ou energia deve ter uma relação EROEI de pelo menos 3: 1.

  • EROI > 10:1 geralmente suficiente para sustentar sociedades complexas
  • EROI entre 3:1 e 10:1 é considerado viável, mas com limitações
  • EROI < 3:1 energeticamente “caro” (quase não compensa)

Valores típicos de EROI por fonte:

  • Petróleo convencional: 20:1 a 100:1
  • Petróleo (pré-sal): 15:1 a 25:1
  • Petróleo não convencional (areias betuminosas, shale): 3:1 a 10:1
  • Gás natural: 10:1 a 20:1
  • Carvão: 30:1 a 80:1
  • Fissão nuclear: 10:1 a 15:1
  • Hidrelétrica: 30:1 a 100+
  • Hidrelétrica (BR): ~40:1 a 100+
  • Eólica (onshore): 20:1 a 40:1
  • Eólica offshore: 15:1 a 30:1
  • Solar fotovoltaica (Escala de utilidade pública): 3:1 a 15:1
  • Solar residencial (telhados): 0,8:1 a 10:1
  • Etanol de milho: 1:1 a 3:1
  • Etanol de cana: 5:1 a 10:1

O EROI é útil, mas está longe de ser uma métrica “neutra”. Há vários debates sérios sobre como ele é calculado e interpretado. Os principais questionamentos e pontos de divergência entre os pesquisadores são:

  • Onde começa e termina o cálculo: esse é o problema mais fundamental. O EROI depende do limite do sistema (system boundaries). Exemplo com energia solar: inclui só a fabricação do painel? Ou também a mineração de silício, transporte, reforços na transmissão de energia elétrica e investimentos no armazenamento de energia (baterias)?
  • Qual “energia investida” conta: nem toda energia é equivalente — mas o EROI trata como se fosse (Energy quality). Mistura energias com qualidades diferentes, distorcendo comparações entre fontes.
  • O fator tempo é ignorado: o EROI clássico não considera quando a energia é produzida. Um sistema solar retorna ao longo de 25 anos, já o petróleo o retorno é rápido após extração. Portanto, dois sistemas com mesmo EROI podem ter impactos econômicos muito diferentes (“energy payback time” – tempo de retorno energético).
  • Intermitência não entra no cálculo: fontes como solar e eólica têm EROI razoável, mas não produzem continuamente e precisam de backup ou armazenamento. O EROI normalmente não inclui: baterias, usinas de backup e reforço da rede. O EROI de renováveis pode ser superestimado se ignorar o sistema completo. Infraestrutura e sistema são subestimados
  • Falta de padronização metodológica: não existe um único “manual oficial” de EROI. Diferentes estudos usam dados diferentes, métodos diferentes e fronteiras diferentes. Os valores variam drasticamente entre estudos sendo de difícil comparação direta.
  • Não considera impactos ambientais: O EROI mede apenas energia, não sustentabilidade.
  • Não reflete custo econômico: a produção líquida de energia é diferente do custo/preço. O EROI não substitui análise econômica.
  • EROI dinâmico (muda com o tempo): o EROI não é fixo. O Petróleo está caindo ao longo do tempo e renováveis estão subindo com os ganhos de escala.

O EROI continua útil, mas funciona melhor como indicador físico aproximado, não como métrica final de decisão. Na prática, decisões energéticas usam uma combinação de: EROI, custo (LCOE), confiabilidade e impactos socioambientais. A partir da Revolução Industrial, a sociedade ascendeu na escala EROEI (Retorno Energético sobre o Investimento) à medida que fizemos a transição da madeira para o carvão, depois do carvão para o petróleo e gás, e finalmente para a energia nuclear, resultando em um grande excedente de energia. A transição para energias renováveis ​​intermitentes com baixo EROEI pode estar nos levando de volta a um patamar inferior na escala de EROEI, e corremos o risco de cair no abismo energético líquido. Uma medida melhor é analisar a quantidade de eletricidade gerada por hora trabalhada. A redução na produtividade do setor elétrico coincide com o aumento na geração de eletricidade a partir de fontes renováveis ​​intermitentes (eólica e solar). Estudo mostra que a medida que a percentagem de geração de eletricidade a partir de energia eólica e solar aumentou de 0,7% em 2005 para 34,5% em 2024 no Reino Unido, a produtividade do setor caiu de 2,34 MWh/h para 1,13 MWh/h (R² = 63,6%). () A neutralidade de carbono está destruindo valor e causando retrocesso na sociedade. “Presume-se que um ERoEI (Retorno Energético sobre o Investimento) superior a 5 a 7 seja necessário para o funcionamento da sociedade moderna. Isso marca o limite do Abismo Energético Líquido, e fica claro que as novas tecnologias verdes, concebidas para salvar a humanidade do CO2, podem, em vez disso, levá-la à morte por meio da escassez de energia. Os combustíveis fósseis permanecem confortavelmente distantes do abismo, mas se aproximam dele a cada ano que passa. … Na verdade, é a quantidade de energia líquida que alimenta tudo na sociedade como a conhecemos hoje. A energia líquida proveniente da coleta de energia no passado se acumulou para criar o que identificamos como capital e riqueza. Nada poderia ser mais importante, e ainda assim o conceito permanece à margem da política energética e da consciência pública. … Muitos presumem que um ERoEI > 7 seja necessário para o funcionamento da sociedade industrial em que vivemos, embora a origem dessa afirmação permaneça obscura. Mas a fronteira azul-vermelha oferece uma imagem visual clara do porquê disso. Abaixo de 7, a humanidade despenca no abismo energético, onde uma parcela excessiva de nossos recursos humanos e de capital precisa ser investida simplesmente na sobrevivência, em detrimento dos serviços fornecidos pela energia líquida, como saúde, educação e previdência. … O maior risco para a sociedade humana hoje é a noção de que podemos, de alguma forma, substituir os combustíveis fósseis de alto ERoEI por novas energias renováveis, como a solar fotovoltaica e os biocombustíveis. Estes existem na rede energética porque são subsidiados pelos combustíveis fósseis de alto ERoEI que coexistem. O subsídio ocorre em múltiplos níveis, desde os combustíveis fósseis usados ​​para criar os dispositivos de energia renovável e os biocombustíveis até os combustíveis fósseis que fornecem os serviços de balanceamento de carga. Os combustíveis fósseis fornecem a riqueza monetária para pagar os subsídios. Propõe-se que o dinheiro foi inventado como meio de troca pelo trabalho que a energia realiza em nosso benefício. Se vivêssemos em uma sociedade com uma única moeda global (o EJ) e sem impostos ou subsídios, então o dinheiro poderia representar uma aproximação razoável para o ERoEI, embora ainda persistissem distorções devido às diferentes eficiências com que esse dinheiro (EJ) fosse gasto. Contudo, no mundo real, existem diferentes moedas, taxas de juros, dívidas, impostos e subsídios que permitem que as regras termodinâmicas do mundo da energia sejam flexibilizadas, ainda que temporariamente. Corremos o risco de trocar ouro por terra.” ()

Conclusões

A transição da ilusão ao equilíbrio no papel da energia na vida humana evidencia que a responsabilidade não pode ser delegada apenas a instituições ou governos. Cada indivíduo, em sua esfera cotidiana, exerce influência concreta sobre o uso e a preservação dos recursos energéticos. O equilíbrio depende de escolhas conscientes: reduzir desperdícios, adotar práticas sustentáveis e reconhecer que o consumo energético está intrinsecamente ligado ao bem-estar coletivo e à preservação ambiental. Assim, a energia deixa de ser percebida como um recurso ilimitado e passa a ser compreendida como um bem comum, cuja gestão exige corresponsabilidade. O futuro energético da humanidade será determinado não apenas por políticas globais, mas pela soma das atitudes individuais orientadas pela consciência e pelo compromisso ético com a sustentabilidade

A energia é um serviço essencial que sustenta a nossa qualidade de vida. Quando tratamos a energia acessível como vilã, nos esquecemos de que sem ela, não há economia, nem saúde, nem educação, nem conforto, nem dignidade humana. Porém, as expectativas futuras são pouco animadoras: aumento de custos crescentes, racionamentos (gerenciamento da demanda), menor confiabilidade do sistemas e maior risco de blackouts.

Segundo o World Energy Report 2025, a procura por petróleo e gás natural ainda deve crescer até 2050, contrariando estimativas anteriores. O sistema energético mundial é enorme e leva décadas para mudar.
Eficiência energética, autoconsciência comportamental e responsabilidade socioambiental não são contradições. Elas sintetizam as três dimensões da responsabilidade humana na relação com a natureza e uso dos recursos energéticos (renováveis ou não).

Não se trata de defender a escassez ou o excesso de energia e seu uso insustentável, mas de redescobrir o equilíbrio. Produtos petroquímicos, combustíveis para transporte e eletricidade não são o propósito da civilização, são meios para servir à vida na Terra. Eles existem para cumprir uma função, para viabilizar a vida, a engenhosidade e inovação antropogênica. A energia é uma companheira fiel na jornada humana, uma parceira silenciosa em cada etapa da evolução civilizatória, onde tecnologia e humanidade se transformaram em uma unidade indivisível.

A verdadeira eficiência energética não reside apenas no momento da sua utilização direta, mas no cuidado que molda todo o ciclo de vida (do berço ao túmulo, envolvendo todas as etapas de existência de algo, desde sua origem até sua finalização) de máquinas, equipamentos, veículos, utensílios, eletrodomésticos, insumos, processos de fabricação etc.
“Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer. ” (Fernando Pessoa) Esta frase significa que apenas querer algo não é suficiente para consegui-lo. É preciso ter a capacidade, os meios incluindo autoridade para realizar aquilo que se deseja, entre eles a transição energética justa e o abandono do uso dos hidrocarbonetos (petróleo, gás e carvão). É uma constatação sobre a diferença entre o desejo e a possibilidade de concretizá-lo. Não basta boa vontade, ideologia ecológica, ativismo climático ou visão socioambiental estratégica. Precisamos de soluções técnicas e economicamente viáveis, com metas plausíveis e eficazes, onde as dimensões socioambiental, climática, tecnológica, econômica e política possam avançar ecopragmaticamente, com forte enfoque científico em contraposição à lógica meramente conservacionista, de litigação climática e fanatismo ambientalista.

A adaptação de políticas “consagradas” internacionalmente aos diferentes contextos territoriais brasileiros, fugindo da rigidez é necessária para reduzir a ineficiência. Precisamos de políticas energéticas sensatas e de adaptação às mudanças climáticas, como a humanidade tem feito ao longo de toda a história. A política energética é sobretudo uma política humanitária: quando realizada de forma eficaz, as pessoas vivem vidas mais longas, saudáveis, prósperas ​​e livres.

Negar ou obstaculizar o acesso à energia não é prova de sabedoria energética. Saber não é o bastante; precisamos aplicar! Sabedoria energética é o fundamento da civilização sustentável.

 

Enio Fonseca – Engenheiro Florestal, Senior Advisor em questões socioambientais, Especialização em Proteção Florestal pelo NARTC e CONAF-Chile, em Engenharia Ambiental pelo IETEC-MG, em Liderança em Gestão pela FDC, em Educação Ambiental pela UNB, MBA em Gestão de Florestas pelo IBAPE, em Gestão Empresarial pela FGV, Conselheiro do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico, FMASE, foi Superintendente do IBAMA em MG, Superintendente de Gestão Ambiental do Grupo Cemig, Chefe do Departamento de Fiscalização e Controle Florestal do IEF, Conselheiro no Conselho de Política Ambiental do Estado de MG, Ex Presidente FMASE, founder da PACK OF WOLVES Assessoria Ambiental, foi Gestor de Sustentabilidade Associação Mineradores de Ferro do Brasil e Diretor Meio Ambiente e Relações Institucionais da SAM Metais. Membro do Ibrades, Abdem, Adimin, Alagro, Sucesu, CEMA e CEP&G/ FIEMG e articulista do Canal direitoambiental.com.

Linkedin Enio Fonseca

Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico – FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance.

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