Por Alexandre Abreu
Em um momento em que se exige cada vez mais boas práticas de governança e responsabilidade socioambiental no futebol, em atenção às transformações impulsionadas principalmente pela agenda ESG, o consumo de produtos esportivos em geral, especialmente camisas de clubes, movimentam uma cadeia econômica que vai muito além do que vemos na TV.
À primeira vista, pode parecer que não há nenhuma relação entre futebol e meio ambiente. Porém, a crescente incorporação da agenda ESG às atividades econômicas demonstra que temas como sustentabilidade e responsabilidade ambiental tem integrado os mais diversos setores da sociedade, inclusive a indústria esportiva, aqui tratando de forma mais específica da indústria do futebol.
Nesse cenário, não podemos deixar de lado a importância da discussão sobre sustentabilidade no futebol. A utilização de materiais recicláveis na confecção de uniformes, redução de resíduos, reaproveitamento de água em centros de treinamentos e estádios e adoção de práticas alinhadas à agenda ESG passaram a ser tratados como pontos estratégicos das principais marcas esportivas e clubes de futebol do mundo, visando o fortalecimento de marca e alinhamento às melhores práticas de governança corporativa.
O segmento de fabricação de produtos relacionados ao universo esportivo, historicamente figura entre os setores de grande consumo de recursos naturais no processo produtivo e significativa geração de resíduos. Nesse contexto, conceitos relacionados à economia circular vêm ganhando relevância no setor com mecanismos voltados ao reaproveitamento de materiais na fabricação e mitigação dos impactos ambientais associados ao consumo em larga escala.
No contexto do futebol, embora iniciativas de sustentabilidade já estivessem presentes em eventos esportivos internacionais, a Copa do Mundo FIFA de 2014 representou importante marco para a consolidação da pauta ambiental no futebol brasileiro, quando foram estabelecidas diretrizes de sustentabilidade, eficiência energética, possibilidade de uso racional da água dentre outros, na construção e reforma de estádios e centros de treinamento.
No Brasil, algumas iniciativas pioneiras aproximaram o futebol da pauta ambiental, a exemplo do projeto de carboneutralização, chamado “Jogando pelo Meio Ambiente”, iniciado no ano de 2010 e promovido por Corinthians e Palmeiras junto com empresa do setor privado, na qual era realizada a captura de gases do efeito estufa por meio do plantio de árvores, tendo sido responsável pela criação de uma reserva ambiental de árvores nativas da Mata Atlântica onde foram plantados quase 50 mil mudas.
Outro exemplo, um pouco mais recente é o Clube Atlético Mineiro, que inaugurou em 2020 a “Usina do Galo”, responsável pela produção de energia fotovoltaica para abastecer a sede administrativa, o centro de treinamento e os dois clubes sociais, com potencial de geração de economia energética e redução de impactos ambientais associados ao consumo de energia elétrica. O Goiás, implementou projeto semelhante, para uso de energia solar em seu centro de treinamento.
Já o Internacional lançou em 2023, junto da fornecedora de material esportivo, uma camisa que ressaltava as iniciativas de sustentabilidade do clube, a única do Brasil com o Certificado de Gestão de Resíduos. Além disso, o clube também conta com uma central de triagem dos resíduos antes de sua destinação final, em parceria com uma Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis.
Embora distintas em escopo e objetivos, essas iniciativas demonstram que a sustentabilidade deixou de ocupar posição periférica na gestão do futebol, passando a ocupar posição estratégica para os clubes e marcas, agregando valor institucional às marcas envolvidas e fortalecendo a percepção positiva perante torcedores, patrocinadores e parceiros comerciais.
Sob a perspectiva ESG (Environmental, Social and Governance), pode-se dizer que nos últimos anos, os clubes de futebol passaram a ser avaliados não apenas por seu desempenho esportivo, mas também por sua capacidade de promover inclusão social, assegurar transparência e adotar mecanismos efetivos de governança corporativa. Nesse contexto, investimentos em temas relacionados à sustentabilidade tendem a fortalecer a reputação institucional dos clubes, ampliando a confiança de patrocinadores e sobretudo, do seu consumidor final, os torcedores.
Medidas voltadas à melhoria da qualidade ambiental e ao uso racional de recursos naturais em centros de treinamento, arenas esportivas e demais estruturas ligadas ao futebol vêm sendo progressivamente valorizadas por torcedores, patrocinadores e parceiros comerciais, refletindo uma crescente conscientização social acerca da importância da sustentabilidade e da responsabilidade socioambiental.
O futebol possui enorme capacidade de influência social e cultural. Por isso, a incorporação de práticas sustentáveis por clubes, fabricantes e demais agentes do setor esportivo tende a ultrapassar o aspecto meramente reputacional, consolidando-se como elemento relevante de inovação, governança e responsabilidade corporativa.
Em um cenário no qual sustentabilidade, governança corporativa e critérios ESG assumem papel cada vez mais relevante nas decisões empresariais e institucionais, o futebol brasileiro e mundial também passa a ser chamado a exercer protagonismo na promoção de práticas ambientalmente responsáveis, representando uma verdadeira vantagem competitiva para os clubes.
Se o futebol possui capacidade de mobilizar milhões de pessoas, é possível utilizar o esporte e os clubes para influenciar essas pessoas a aderirem a melhores comportamentos, sobretudo no campo da proteção ao meio ambiente.
Alexandre Abreu – Advogado especialista em Direito Ambiental do Escritório Rolim, Goulart, Cardoso de Belo Horizonte – MG
Alexandre Abreu Advogado atuante na área Ambiental e Regulatório do escritório Rolim, Goulart, Cardoso, de Belo Horizonte – MG. Graduado pela Escola Superior Dom Helder Câmara, 2015. Especialista em Direito Processual Civil e em Direito Ambiental e Urbanístico pelo Instituto de Educação Continuada da PUC-MG. Membro da Comissão de Direito Ambiental da OAB/MG.
E-mail: [email protected]
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